Vou retomar aqui uma questão que me parece das mais relevantes, nesse momento, pra isso que restou do ocidente. Quando digo 'isso que restou' estou simplesmente evitando usar o nome Ocidente pra descrever o ambiente intelectual vigente nessas áreas. Histórica e culturalmente me refiro ao ocidente mesmo. Trata-se da questão das divisões, das oposições.
Antes de mais nada é preciso entender o que são estas oposições, não tal qual se apresentam, é claro, mas tal qual são. Me parece louco acreditar que na Realidade existam de fato oposições, embora creia que existam tensões, tensões que se reportam à unidade maior do Todo, do Logos, que é hierarquicamente superior às tais tensões. Mas como poderia a Realidade ser una e ao mesmo tempo possuir tensões? A resposta já está implícita, mas vamos, para fins de clareza, decompô-la analiticamente: o nível absolutamente superior da Realidade, o Logos, é uno, porém nós, humanos, não vivemos nele, vivemos em um nível abaixo, intermediário, onde as tensões existem. São portanto níveis diferentes de realidade, agora em minúscula.
E não conseguimos ter acesso a esse tal Todo uno? Conseguimos. 'Ter acesso a' é diferente de 'se tornar'. Nós temos acesso, vislumbramos a existência do Todo, mas, enquanto humanos, não nos tornaremos Ele. Acessamos ele através da contemplação das tensões, do olhar sobre o além que salta da operação dessas tensões. Para fins de comunicação podemos chamar aqui a atividade que leva a essa tal contemplação de meditação.
Agora vamos voltar ao mundo em que vivemos. Eu considero o mergulho na Metafísica bom para se ligar pontos, para se solidificar o pensamento. O que significa que considero péssimo permanecer lá, que a permanência na Metafísica é um vício que nos deixa com a impressão de que o Logos é algo altos mongo, entediante, vazio, e não aquilo que Ele de fato é, ou seja, aquilo que se expressa a nós infinitamente (e muitas vezes misteriosamente) em todas as nossas experiências, em toda a nossa vida.
Neste tal mundo de tensões em que vivemos é natural e bom que estabeleçamos oposições que expliquem tais tensões. Não (ao menos não sempre) pra se decidir por um lado, antes pra entender as coisas. Pense por exemplo quando você usa uma palavra, um substantivo digamos, 'o Coringão'. Se essa palavra descreve algo, que pode ser entendido por um grupo de pessoas, ela já estabeleceu uma oposição, tem algo que é o que ela descreve e algo que não é. O Parmera por exemplo não é o Coringão.
E o que acontece quando toda uma sociedade mais ou menos homogênea culturalmente, a ponto de ao menos conseguir se entender um mínimo que seja (o ocidente por exemplo, ou o Brasil), estabelece e aceita largamente termos e conceitos (encerrados em palavras) que descrevem idéias confusas, logo tolas, pseudo-conceitos mesmo? Isso mesmo, vira tudo uma puta desgraceira, uma imensa conversa de idiota. E de repente o papo deste artigo, que poderia soar como uma baboseira acadêmica, despenca como um aparelho de ar condicionado velho sobre o nosso mundo corriqueiro.
E tal confusão é tão ruim assim? Sim, é uma catástrofe. Isso porque a confusão não se encerra em pessoas confusas que procuram humilde e pacientemente desfazer seus enganos (isso nem é confusão, é busca), ou mesmo escolhem conviver numa boa com sua confusão sem usá-la pra sustentar posições. A confusão se torna antes uma arma, uma preparadora de terreno pra ação de toda sorte de pilantras, mal intencionados consciente ou inconscientemente. Ou você acredita que quando aquele rapaz disse 'Alguém nos ajude, Lázaro, a entender' ele estava mesmo humildemente esperando o Lázaro explicar algo pra ele?
A confusão institucionalizada faz mais do que desvirtuar um potencial jovem bem intencionado, ela deixa o terreno pronto pra arrogância juvenil (de todas as idades, não só de adolecentes de rg mesmo) e pro desenvolvimento da grande pérola da maldade, do supremo filho do ódio à Beleza: a covardia.
O covarde não encara nada de frente, ele se vale da confusão geral pra armar os seus joguinhos, pra, por exemplo, imputar em seu inimigo ou pseudo-inimigo algo baixo que este não é (já que o entorno confuso tem grandes chances de acreditar), ou mesmo pra criar um inimigo inexistente muito filho-da-puta e se colocar como o nobre opositor deste. Se você reparar com a calma necessária verá que o covarde não está combatendo e nem interessado em combater nada de fato, combater algo que existe de fato exige coragem.
Um exemplo desse tipo de confusão? São muitos no citado ocidente, provavelmente muitos que eu nem consegui perceber ainda e talvez não perceba nunca, mas vamos ficar com um que é bem claro a todos que vão ler isso aqui: a profundamente tola oposição entre esquerda e direita estabelecida no Brasil (a do ocidente é um pouco menos tola mas ser um pouco menos tola que a brasileira não vale ponto pra ninguém). As camadas de besteira envolvidas são muitas, vamos destacar uma, só pra dar mais concretude à idéia: a noção de que um jovem precise se definir entre um bocó vazio e violento desses que proliferam em empresa grande (pra cujo qual a cultura maldita vigente criou o termo 'coxinha') ou o contrário disso. Sim, o contrário. O que é de fato o contrário? Eu não vou nem tentar explicar porque é uma confusão terrível, vamos ficar com 'o contrário'. Essa é inclusive uma mania ao mesmo tempo engendrada pela confusão e geradora dela (e logo de muita tristeza, é claro): a de definir a si mesmo ou ao outro a partir do "contrário" de algo que em si é um nada.
Não confundamos este com o 'contrário' utilizado em exercícios dialéticos do qual lançam mão muitas figuras admiráveis, que estão lidando com o que? com as tensões descritas ali acima, mas isso é matéria pra outros ensaios.
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